ESPORTE

Rocky Balboa, Guga, e como é difícil parar

Lançado em 2006, Rocky Balboa é o último da série de seis filmes que tem o lutador Rocky como protagonista e o boxe como pano de fundo. Estrelada por Sylvester Stallone, a série permite as mais diversas avaliações: se para alguns trata-se de uma fórmula de roteiro sempre igual, com interpretações pífias e simplificações grosseiras do esporte, para outros é um exemplo de garra e superação que transcendem o atleta e envolvem toda a vida do personagem. Rocky Balboa coloca um ponto final heróico na carreira do personagem: já aposentado, com mais de 50 anos, Rocky luta pela última vez em um embate que simboliza a força de vontade contra a habilidade, representando a primeira. No ringue, coloca todas suas emoções – morte da mulher, distanciamento com o filho, lembranças do treinador que já se foi – como motor para dar uma lição de garra e sair aclamado como exemplo de atleta que luta com paixão. “Mostre a eles que a última coisa que envelhece é o coração”,diz-se a ele em parte do filme.

A idealização da última luta é facilitada pelos elementos cinematográficos envolvidos: a música, os flashbacks, o espetáculo, tudo ajuda a compor o clima de superação do velho lutador. Mas será que isso é possível na vida real? Até que ponto um atleta em fim de carreira consegue se superar genuinamente e causar mais emoção do que compaixão?

No último mês, dois importantes atletas brasileiros anunciaram suas aposentadorias. Guga, tenista tricampeão do torneio de Roland Garros; e Romário, jogador de futebol com mais de mil gols e uma carreira que inclui o título de melhor do mundo e uma Copa do Mundo. Os dois se aproximam entre si e ao personagem do filme pelo fim de carreira aplaudido e aclamado pelo público. Ambos também contêm histórias de superação no final, mas particularmente o tenista se aproxima mais do drama vivido por Rocky.

Guga anunciou a aposentadoria no início deste ano e começou uma turnê de despedida, com participação em torneios nos quais já se saiu vencedor. Diferente de Rocky, a idéia de participar dos torneios não tem o intuito da vitória. No caso do tenista, o peso das contusões é decisivo, e Guga já imaginava que cairia nas primeiras rodadas, como está acontecendo na maior parte dos torneios. Mas o tenista se aproxima do personagem dos cinemas na afirmação do amor pelo esporte e na superação que mantém até o fim. Guga quer se despedir do público e é fácil perceber o quão difícil é parar. “Não é que eu não queira, é que eu não consigo mais”, disse na despedida da Costa do Sauípe, torneio onde caiu na primeira rodada e do qual já se saiu vencedor duas vezes no passado. A carreira do atleta, em qualquer esporte, é sempre marcada pela sombra de dois fatores que o acompanham: as derrotas e a certeza de que um dia terão que parar. Chega a ser uma luta contra o tempo, e tanto Guga como Rocky mostram o quanto o segundo fator é mais angustiante: a derrota não exclui a luta, muito pelo contrário, na maioria das vezes está até mais carregada dela do que nas vitórias, algo que Guga explicou bem quando disse que viveu mais intensamente os períodos em que não esteve na melhor forma. O fim da carreira, por sua vez, é de certa forma a renúncia da luta e de tudo que envolve a superação que o esporte competitivo impõe com maestria.

Fica claro, tanto no caso de Rocky quanto de Guga, que a emoção do atleta, e também do público, estão muito mais ligados ao esforço de superação da dor – e de todos os outros obstáculos extra-esporte, como a morte da mulher para Rocky e do irmão para Guga – do que a vitória propriamente dita. A vida não imita, mas de forma mais realista, se assemelha e por vezes supera a emoção da arte.

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