Foi muito antes da faculdade que eu aprendi que a vida na verdade é dividida em semestres. Lá pelos meus 11 anos a escola me mostrava que o ano era composto de 4 bimestres e com mais de 20 pontos somados dava pra passar, mas o calendário da FAP ia contra isso e era ele que balizava minha vida; no meio de junho e começo de dezembro estavam os objetivos do ano, divididos no primeiro e segundo semestre, pra culminar nesses dias, depois nas férias, e não importa o que acontecesse, em julho ou janeiro eu esquecia de toda parte ruim e estava pronta e sedenta pelos seis meses de novo.
Uma década depois, trocas de faculdade superadas e a FEA decididamente na minha vida, essa divisão era comum para todos, agora marcada pelas provas unificadas, coincidentemente, também ali no final de junho e começo de dezembro. Não no comecinho de julho ou no final de novembro. No final de junho e no começo de dezembro, bem do jeito que minha cabeça e meu corpo foram treinados para esperar.
Só que vestibular, prova, faculdade, é tudo muito legal, mas como se apaixonar por isso? Passar de uma matéria é antes alívio do que felicidade bruta. Sair com os amigos, morar sozinho, viajar, como cai bem a independência, ter grana pra comprar suas coisas, como é bom namorar. Mas por melhor e maravilhoso que seja ter pessoas amadas ao nosso redor e ir pra outros redores, mais do que o calendário a FAP já tinha me ensinado que o que traz sentido pra vida é aquela alguma coisa que a gente tem que amar. Até porque eu varzeio na faculdade, eu brigo com meu namorado, eu fico de ressaca, eu canso as vezes do trabalho. É tudo parte da vida e que bom que tem tudo isso; mas é na natação que eu sou a melhor Bia que eu posso ser – não é porque é a natação, é porque é o meu amor, e sou tão grata por saber exatamente qual é o meu, muita gente passa a vida e não descobre isso.
E a FEA foi lá e escancarou pra mim um jeito de sentir de novo aquilo que eu achei que tinha matado e enterrado em 2004. Não foi de cara: no primeiro ano eu não entendia nada a ainda achava aquilo tudo muito chato, pequeno demais perto do que é uma “competição de verdade”. Foi aumentando um pouco a cada ano, e nunca foi tão certo como 2011.
Meus textos sempre partem de uma frase, e esse título já tinha surgido na minha cabeça no ônibus, depois de algum treino voltando da academia pra casa, do nada parece que apareceu completinho tudo que eu escreveria se ganhasse aquela prova. Ia ser aquilo: o tal sentimento inexplicável do Pinheiros 2001 ou Recife 2004, de novo.
Mas dessa vez não veio – como em tantas outras não tinha vindo.
Voltando de Ourinhos, pensei que pena desperdiçar a ideia, tinha feito todo sentido pensar em reviver tudo depois de 7 anosem só seis meses, com sacrifícios diferentes, técnico diferente, adversários diferentes, competição diferente e até prova diferente, mas com aquela mesma vontade, com o mesmo e único frio na barriga; com o mesmo Caio sempre do meu lado, a mesma certeza de que valia a pena, e em busca do mesmo sentimento depois de olhar o placar. Foi tão intenso que eu até acreditei que era velocista desde criancinha.
Me dei conta que os sete anos em seis meses faziam ainda mais sentido, e até me envergonho de ter duvidado que faziam. Meu dilema do blog não é a coisa mais importante do mundo e estou atrasada pra estudar pra última das unificadas, agora no finzinho de junho, mas nada como se sentir viva de verdade, impagável o calor abafado que vem da baliza e só atrás dela você consegue sentir; nada como o vazio pós uma competição e pra vida toda como é bom chegar em casa com cheiro de cloro e dormir exausta. Nada como manter a dignididade mesmo vendo como é facil se rebaixar – eu posso me rebaixar em tudo, mas nisso e desse jeito nunca. Nada como poder olhar as fotos, sentir saudades do Caco e do Gérson. E lá pro meio de julho esquecer toda parte chata e voltar a acreditar que de algum jeito dá, encontrar uma hora por dia pra estar no meu habitat natural, sentir prazer na dor, contar os dias que faltam, e fazer tudo igualzinho de novo.
Agora sim eu estou te reconhecendo.
Nada a comentar sobre o texto, qualquer coisa que eu diga vai estragar o que eu realmente sinto quando eu leio seus textos sobre os velhos (ou até atuais) tempos de natação.
Eu nunca nadei. Eu nunca vi o calendário da FAP. Eu nunca conquistei aquilo que eu mais quis. E talvez eu só tenha descoberto algum amor semelhante a esse muito depois de você. Mas por saber exatamente o que é o vazio pós competição que eu tenho certeza de que enquanto houver outra, a vontade de começar de novo vai e tem que existir.
Que engraçado a Paty falar isso =)
Agora sim!
…e que venha julho e os próximos 6 meses!
E sinta-se muito feliz mesmo por ter descoberto esse amor e por ter a oportunidade de vive-lo intensamente, ainda mais por poder somar a oportunidade de defender as cores da FEA, outra paixao.
Até hoje eu nao superei por completo a frustração de não ter conseguido jogar pela FEA, meu corpor nao deixou…
Mas agora to indo estuda, ok?
Hehehehe.
Bjs!