Em 2004, quando o Cielo ainda era apenas mais um campeão brasileiro de categoria e promessa para o futuro do Brasil – há tantos como ele, uns que acabam indo para as Olimpíadas e nunca chegam à final, outros são engolidos quando chegam no absoluto, muitos continuam e estagnam nos tempos do passado, tantos outros param, pouquíssimos concretizam o sonho da medalha olímpica -, nesse já longínquo 2004, um destes pouquíssimos brasileiros que já ocuparam um lugar no pódio olímpico, Gustavo Borges, anunciou sua aposentadoria em Atenas.
Já sem condições de competir de igual para igual contra os novos atletas no 10o livre, esta que lhe deu uma prata e um bronze olímpicos, Gustavo nadou somente o 4×100 livre, que quatro anos antes havia lhe dado o bronze junto com os bravos Xuxa, Carlos Jayme e o sempre querido Edvaldo Valério, primeiro negro do Brasil a conquistar uma medalha na natação.
Tenho guardado até hoje o jornal que anunciou sua aposentadoria, em uma manchete perfeita e que me toca até hoje, “Borges lembra de Barcelona, do calor seco e de como é difícil parar de nadar”. Guilherme Rosenguini, à época na Folha e hoje meu narrador e comentarista preferido do Sportv, conseguiu com “calor seco” chegar à expressão exata para tantos lugares onde nadei e de alguma forma me levou até Atenas quando li essa matéria. Mas mais do que isso, o “como é difícil parar de nadar” fez cair a minha ficha sobre tudo o que estava acontecendo, tão parecido o Gustavo Borges comigo.
Eu tinha 16 anos, e enquanto minhas amigas começavam a namorar e trocar a matinê pelas baladas noturnas, eu nadava todos os dias, muitas vezes de madrugada e depois novamente de tarde, em busca da minha redenção. Depois de anos sendo uma das melhores nadadoras de Santos na minha categoria, de conquistar aos poucos meu lugar nos campeonatos paulistas e brasileiros e de provas memoráveis, minha má fase tinha chegado, um ano antes. Um erro de estratégia, um período ruim, eu não sabia o que era, mas como era difícil não melhorar. Junto com a minha, a má fase do meu clube do coração também tinha chegado, e depois de anos sai do Saldanha, para fugir um pouco de algumas pessoas e muito de uma decadência que eu não sabia viver.
Fui para o Santa Cecília viver um dos anos mais intensos da minha vida, para entender como é bonita de verdade a persistência, como é bom se dedicar a um sonho, como uma rotina pode ser intensa em cada dia se o que você faz tem sentido – não precisa ter sentido para os outros, só para você.
No paulista do meio do ano, voltei ao pódio depois de dois campeonatos, e extensos dezoito meses de dúvidas, mudanças e muitos treinos. Como não podia deixar de ser, foi nos 800 livre (e que pena que demorei tanto tempo para entender que essa era a prova da qual nunca devia ter desistido), a primeira medalha do Santa naquela competição, perdendo para a eterna garota da raia ao lado, Munique Seto, do Corinthians, onde hoje, ironia do destino, meu irmão ajuda atletas de 13 e 14 anos a tornar seus sonhos realidade.
Hoje não sei dizer porque, mas em agosto, na volta das férias, alguma coisa não se encaixava. Me toquei de repente que no outro ano tinha vestibular, e de repente percebi que eu jamais seria uma nadadora olímpica. Simples assim. Percebi que estava perto da hora de escolher se era pra nadar ou estudar, e deus, como é difícil escolher.
E como é difícil parar de nadar.
Pensei bem e continuei. Não foi uma decisão que tomei em algum momento. Fui seguindo a rotina, vieram alguns bons treinos, e veio a notícia de Recife no final do ano. Re-ci-fe, tão bonito e tão fácil de dizer, que antes de conhecer, eu já sabia que era lindo.
Nesse meio tempo também vieram as Olimpíadas. Fiz um caderno onde escrevi sobre todas as provas da natação, comentando as performances da Laure Manadou, do Kitajima, o embate inesquecível de Phelps, Hoogenband e Thorpe, que agora está de volta, para alegria dos amantes deste esporte lindo, nem sempre justo, e sempre cruel que é a natação. Você não pode deixar de treinar nem um dia, e mesmo treinando todos não tem nada garantido (pensando bem, a vida é assim também). Não existe meio esforço para quem quer ser bom na natação.
Vendo as palavras do Gustavo Borges no jornal, me senti um pouco aliviada. Me dei conta que para mim, para ele, para qualquer um que coloca sua vida no esporte, é sempre díficil parar, tendo 17 anos à beira de um vestibular, tendo 40 anos e insistindo como uma leoa por uma final em Finkel, como a admirável Gisele Caetano Pereira. Tendo 30 e poucos anos e se vendo diante de sua última Olimpíada, como foi para Gustavo Borges, tendo uma lesão incurável e em um discurso emocionante, como fez seu xará, brilhantemente, Gustavo Kuerten, em sua despedida.
Estou escrevendo diretamente do computador do trabalho e não quero que este texto chegue ao fim, porque assim parece que estou de volta àquela rotina e amanhã tem Vo2, com bermuda e esporro do Gerson. Me lembro de minha chegada em Recife, do meu 800 livre inesquecível para toda a vida, toda a vida mesmo, onde finalmente ganhei daquela mesma garota da raia ao lado, ela na 6 e eu na 7. Me lembro de não ligar para minha desidratação que me levou ao hospital e me tirou do 400 livre que ainda hoje eu adoraria nadar, do meu último paulista, sem pódio como o primeiro, de nadar fraca e mais magra mas não desistir até o fim. Me lembro de voltar aos treinos no outro ano e não saber como parar, e também de quando essa ideia finalmente se aquietou em mim e eu parei. Do meu último 800 livre literalmente, na piscina do Inter. De como foi difícil falar com o Gerson, da pizza que comi com meus pais de noite, da medalha, a única que faltou, o ouro do paulista, que o Sakai me deu naquele dia. Da carta do Caio que até hoje me faz chorar. E da minha vida que desde então também tem namorado, baladas noturnas, faculdades e outros tipos de risadas e desafios, mas para sempre vai ser um pouco incompleta, porque não tem mais aquela rotina, aqueles treinos; essa vida muito feliz mais um pouco vazia sem a natação.
Ler esse texto é como voltar no tempo e me imaginar na minha última prova ou no meu último jogo. Ele me faz crer que parar é difícil principalmente por que requer coragem. A mesma coragem essencial à todo atleta vencedor e que motiva a decisão da despedida. É triste, mas chega uma hora em que não dá pra não parar mesmo.
Grande texto, Bi. E com um final que não tinha como dizer de forma mais precisa o que eu também sinto.
Pesado hein… E emo hahua
Tem que abrir uma breja quando bater essas deprês!
E a parte da matinê da breezy foi a melhor!