Já faz três dias da morte de Francis Crippen e vai e vem esse pensamento me passa pela cabeça; hoje, sentada no ônibus voltando do trabalho, quando isso aconteceu de novo, de repente me vi incapaz de lidar com as lágrimas. Não conhecia Crippen mas o que aconteceu me tocou de um jeito forte e estou muito abalada, como se tivesse perdido um amigo.
Não consigo pensar em um protesto, reclamação ou em dizer que tomara que daqui pra frente a FINA acorde e melhore de uma vez por todas as condições de realização das provas de maratonas aquática; preferia que essas provas fossem realizadas por mais 100 anos em condições adversas sem que a entidade aprendesse, do que ter uma única vida terminada em função disso – se é com os erros que se aprende, queria que não tivéssemos que aprender nunca. Quando era mais nova, no ápice do meu romantismo, dizia que seria glorioso morrer nadando, mas sou incapaz de olhar para Crippen e conseguir encontrar alguma beleza em sua morte, algum heroísmo, alguma lição, só vejo um cara que perdeu a vida de uma forma trágica, fazendo o que mais ama, muito novo, uma crueldade completa.
Tinha 14 anos quando me vi perdida pela única vez no mar: foi em Caraguatatuba, acho que era minha quarta ou quinta travessia. Durou pouco, em alguns minutos um menino apareceu e passei a segui-lo, contornei a boia, não cheguei a errar o caminho como duas amigas minhas e chegar em outro ponto da praia, disseram que iam anular a prova, nada aconteceu. Na época, mais nova e muito mais corajosa, não fui capaz de processar o significado daquele imenso mar que me rodeava quando olhei para frente, para trás, e para os dois lados. Ainda bem, acho que se tivesse entendido teria entrada em pânico, o mar é incrível e traiçoeiro, mas há poucas coisas na natureza mais lindas do que ele.
Me senti indigna nesses últimos dias reclamando da minha prova de econometria e dos meus problemas banais, de repente me deu um frio na espinha quando sem querer imaginei a irmã de Crippen recebendo a notícia da morte de seu irmão, gelei me imaginando na situação dela, aguardando seu irmão voltar contando como foi a prova, porque nadou bem ou mal, foi quando pensei nisso que comecei a chorar. O esporte não é justo, mas a vida tampouco é, e isso é amedrontador para quem se acostuma e quer meritocracia, justiça, critérios.
Não sei terminar esse texto de um jeito bonito, mas me lembrei de uma coisa que me conforta um pouco. Dizem que vale mais a pena viver pouco e de forma intensa, do que muito cheio de medos, sem se lançar aos desejos, impulsos, desafios. Esse consolo é parcial, mas me vale para olhar com muito respeito a esse cara que se lançou de verdade a vida, aos seus sonhos, e ao mar. Admiro Francis Crippen e prometo lembrar dele para sempre.
PS: esse texto é dedicado ao Crippen e ao meu irmão, a pessoa que eu mais amo no mundo.

Vc me comove de uma maneira que não sei explicar.
Te admiro muito!