Adoro falar no telefone. Quando era adolescente eu e um amigo adoravamos bater recorde de tempo grudados no tal aparelho. Chegava uma hora que não importava a conversa, repetiamos os de sempre, ficavamos minutos em silêncio. A meta colocada era bater as 4 horas e tantos minutos.
Com celular, sempre houve a tal restrição orçamentária. Desde sempre o meu aparelho móvel é pré pago (ou o pré pago chique, controle). De 2002 quando ganhei o meu primeiro, até hoje, o sinal das companhias melhorou, os planos populares chegaram ao mercado, todo mundo tem pelo menos um celular. Mas para mim a sensação que fica ainda é o pavor de quem começa um assunto longo quando fui eu que liguei. A menos que você seja Vivo local, com quem falo quase de graça, pode crer que minha ligação só é feita se extremamente necessária. Tudo evoluiu mas qualquer conversa de 2 minutos e já vem o vivo informa que meu saldo está abaixo de 10 reais.
Acho estranho quem gasta mil reais em um celular, por melhor que seja. É muito dinheiro! Mas até hoje, ao menos gostava e desejava um iphone. Ele é lindo, cool, da Apple, perfeito. Todo mundo do trabalho tem. Em todas as reuniões, são sempre dezenas de iphones ou blackberrys. E eu pensando:assim que tiver dinheiro sobrando, vou comprar um também. Claro que tem as bizarrices, em tudo nesse mundo tem. O sujeito (curiosamente o cara padrão daquelas reuniões) que está sempre e a qualquer instante checando o celular e digitando sabe deus o que. Não tem Bloomberg, Reuters nem twitter suficiente pra tanta informação.
No meio da saga “assim que efetivada comprarei meu iphone”, faz parte do roteiro uma vergonha que toma conta de mim em saídas onde eu decido colocar meu samsung vermelho em cima da mesa. Se não for com amigo, nem coloco. No trabalho, se entra alguém mais pica grossa, estrategicamente coloco meu casaco sobre o dito cujo. E agora, também com os amigos, estou sendo repreendida. “Quando você vai trocar seu celular para um decente?”, “Pelo amor de Deus, faz um plano que você nem precisa pagar o aparelho”. Nossa, e quanto fica? “Com um plano de R$ 159 por mês por dois anos o iphone sai de graça. Uau, que pechincha!
Depois de um dia inteiro numa dessas tais reuniões, tive a epifania de uma nova bandeira inútil de vida. Me sinto mais leve depois de decidir que não quero iphone, blackberry, ou o nome que seja. Primeiro porque presenciei cenas extremas do sujeito tech-addicted. Na espera pela van, dois pares de olhos vidrados no aparelho. Já na van, às 8h57 todos os oito menos um (eu) presentes estavam checando os zero emails novos enviados desde 8h52. Na reunião, uma hora até o assistente do apresentador estava lá, atualizando o brinquedinho. É isso: voltamos a ser criancinhas viciadas em nossa boneca ou no carrinho da moda, o mais descolado e, claro, o mesmo de todo mundo.
Não sou contra tecnologia, nem contra modinhas .Eu mesma adoro algumas, vendida que sou. E acho incrível ipad, kindle, livro digital, a própria internet eu acho uma coisa absurda ainda. No fim de tarde de domingo, depois de um dia tranquilo e lindo na praia e na piscina, entrei rapidinho na internet do hotel. Não tive paciência para ler todos os emails nem para o facebook.
Mas, plagiando minha amiga Carol, eu sou cuzona gente! Tanto que até hoje queria o tal celular com acesso ilimitado a tudo. E mais: um dia de sombra e água fresca não foi capaz de me tirar do vício de verdade, bastou uma segunda de evento e de gente mexendo no celular o dia inteiro para, no final da tarde, eu me ver desesperada no aeroporto, sedenta por internet, e antes que me desse conta estava pagando R$ 13 pro 18 mintos em uma lan house – sim, elas ainda existem. Ufa, assim deu para apagar os 13 emails do Groupon e Peixe Urbano, 5 do Comunicação e Desenvolvimento da FEA, sabe deus quantos dos mil grupos do yahoo do qual faço parte e 2 direcionados apenas a mim, que obviamente deixei para responder depois.
Então que eu não quero virar refém de mais uma coisa nessa vida. Daqui a pouco já estou acordando no meio da noite para tomar uma água e aproveitando para dar uma olhadinha no gmail. Pelo amor! é pior que cigarro, quanto a este as pessoas ainda tem que lidar com as restrições em lugares fechados. Mas o viciado em celular não, e lá está ele no meio da reunião olhando para baixo e digitando freneticamente, durante uma conversa, e até almoçando. Ninguém se tocou que é falta de respeito também? Não, nada a ver, é interativo, um jeito de estar sempre conectado, sabendo de tudo. Na verdade é muito inteligente, Bia!
Eu fico seis horas por dia na frente do computador trabalhando, sem contar o face eternamente aberto quando estou tomando banho, comendo, (fingindo que) estudando a noite. Já basta ser refém do email, do curtir, do medo de São Paulo, do dinheiro, das convenções, das festas na vivência, da rotina. Uma grande viva ao meu plano de R$ 35 por mês e ao meu celular vagabundo!

