Dezembro 19, 2009

Pinheiros

Quando eu tinha 11 anos e nadei meu primeiro campeonato paulista, a coisa mais importante da vida passou a ser ganhar uma medalha nessa competição. Não existia namorado. Não existia vestibular. Não existia trabalho, carreira, nem futuro que não fosse ser a melhor nadadora do mundo.

Eu sabia que a cada seis meses tinha essa competição me esperando, e em cada semestre treinava mais, melhorava mais, e chegava mais perto do meu objetivo. Não existia cansaço, medo, tempo ruim. Se treinasse mal um dia, chorava no chuveiro mas descontava no treino seguinte.

Em junho de 2001, com 13 anos, fui pra Americana e nadei na segunda série, a mais fraca, dos 800 livre. Antes de mim, as meninas nadaram mal. Era minha chance: depois de quatro paulistas, eu chegaria no pódio. Mas não cheguei: fiquei nervosa, piorei 20 segundos, tive vergonha de sair da piscina.

Esse deve ter sido o dia mais importante da minha vida. Passou a existir medo e tempo ruim, mas eu decidi que nunca mais ia treinar seis meses e colocar tudo a perder. Mais do que isso, eu entendi o que era ser atleta – ou seja, aprendi a superar decepções, que são infinitamente piores que os desafios.

Naquele segundo semestre, fiz tudo certo. Fiquei em quinto no brasileiro em Uberlândia, onde me hospedei no mesmo hotel da Joanna Maranhão, que hoje mostrou que está de volta a velha forma e bateu o recorde brasileiro em uma prova linda. Na época com 14 anos, ela já era campeã brasileira infantil e a estrela da competição.

Subi no pódio na copa mercosul, treinei com os mais velhos, quebrei a barreira dos 10 minutos, ganhei tudo em Santos. Mas eu queria minha medalha de paulista. Sonhava com ela antes de dormir, durante a aula de geografia, no chuveiro depois do treino e fiz contagem regressiva pra chegar dia 10/11/2001. Um dia soube que a competição seria no Pinheiros e algumas pessoas reclamaram que lá é muito abafado, acho que na hora devo ter concordado.

A verdade é que eu lembro de tudo sobre aquele dia. De acordar no baby barioni e da padaria onde tomamos café, da van que estava meio atrasada, do aquecimento, do meu maiô azul de papel e do Caco me chacoalhando antes da prova quando comecei a chorar e falando “você ama isso”.

Nunca mais esqueci essa frase.

Atrás da baliza, dei uma risada quando, antes de alcançar meu sonho, eu já tinha alcançado a maturidade por incorporar essa verdade que o técnico da minha vida me ensinou. E no fundo, eu nunca mais deixei de dar uma risada sempre que estive prestes a decidir alguma coisa que estivesse envolvida com amor – nenhum deles maior que a natação, mas a verdade é que todas minhas decisões importantes foram tomadas por amor.

Fiquei em segundo naquela prova, chorei no pódio, no abraço com o Caio, quando vi aquele medalha de prata tão bonita no meu pescoço, no abraço com o Caco, na comemoração. E o que mais me lembro foi de uma hora em que sentei na arquibancada, eu lembro que era muito magrinha na época, me encolhi e chorei sozinha, pensando que eu tinha que aproveitar momentos como aqueles porque eles “devem ser raros”.

E a vida me mostrou que eles são muito raros mesmo.

Acho que consigo contar nos dedos de uma mão dias tão felizes como aquele. E ainda espero pela sensação de ser a dona do mundo como eu senti aquele dia, porque isso eu não vivi nunca mais.

Sete anos depois, quando por um trilhão de razões – hoje parecendo completamente injustificáveis – eu era uma mera expectadora naquela mesma piscina, vi meu irmão chorar o choro mais sincero que já vi, antes de receber sua primeira e sofrida medalha de campeonato paulista. Na mesma piscina que eu realizei meu sonho, a pessoa que eu mais admiro e amo nessa vida, realizou o dela.

Hoje, o máximo de superação que pude contar para minha mãe foi ter conseguido acordar cedo para ir até o mesmo Pinheiros, agora a meia hora de ônibus de casa, ver Cielo, o cara que mais me fez chorar no ano passado, naquele 50 livre das Olimpíadas, nadar em busca do recorde que faltava.

Cielo nadou na piscina em que começou a virar gente grande na natação, no clube que o acolheu e a quem ele, merecidamente, é grato e faz questão de mostrar. Achei que eu estava calejada pra esse tipo de emoção – ainda mais vindo de alguém tão vitorioso, as vitórias dos mais sofridos sempre me valem mais – mas não contive o choro quando o vi subir na baliza e comemorar o novo recorde mundial de 50 livre.

Porque eu sei, nós, ex e sempre atletas, sabemos que embora Cielo e todos os nadadores,do recordista ao último no brasileiro de categoria, estejam loucos para tirar férias e passar pela primeira vez no ano uma semana sem treinar, o momento com que eles sonham sozinhos antes de dormir é esse que Cielo viveu hoje. Não o recorde mundial, mas o mesmo momento que eu vivi em 2001, e o mesmo momento que meu irmão viveu ano passado.

Eu acredito na beleza do esporte porque foi ele que me ensinou a sonhar e a lutar de verdade por um sonho. E eu agradeço ao esporte – e a esse lugar mágico, o Pinheiros – por me darem a honra de entender o que o Cielo está sentindo hoje.

Fevereiro 1, 2009

O choro de Federer

Uma situação curiosa do esporte é que, na vitória, os atletas tem a oportunidade de viver duas vezes o ápice de sua consagração: uma no momento exato em que sua vitória foi alcançada – o ponto final, o apito do árbitro, o resultado no placar, a nota anunciada pelos juízes. Momentos depois, o mesmo atleta vive a magia da premiação, de receber sua medalha, levantar a taça, receber sua recompensa pelo trabalho realizado. Já vi atletas falarem que o primeiro momento é incomparavelmente melhor, pois trata-se da felicidade no seu estado mais bruto e uma êxtase que muitas vezes é o que impulsiona a fazer tudo de novo somente para sentir de novo a mesma sensação. Outros preferem o pódio: é o momento em que todos os olhos se voltam somente para ele, e muitas vezes é a partir disso, do sonho materializado em um objeto, que se passa a acreditar que ele de fato aconteceu.

A particularidade do tênis é que nele, mais do que em qualquer outro esporte, o segundo colocado é também exposto duplamente ao momento de comemoração – mas como derrotado. Ele difere de esportes em que três competidores são coroados com medalhas, mas também difere de disputas entre dois times, porque neste caso há uma equipe inteira que amarga a derrota. No tênis não. É um duelo de horas entre dois indivíduos, e no final o cerimonial é claro: deve-se cumprimentar o adversário na rede e, na premiação, os dois falam ao público.

Hoje, na final do Australian Open, primeiro Grand Slam do ano, se enfrentaram não apenas dois indivíduos, mas os dois melhores tenistas em atividade, e não seria exagero batizar Federer X Nadal como o maior duelo esportivo da atualidade. Além disso, para delírio do circuito de tênis, um esporte que se pretende um jogo de cavalheiros, os dois tem comportamento impecável nesse quesito. Amigos, sempre se cumprimentam gentilmente no final do jogo, e Nadal insiste em dizer, mesmo quando ganha, que Federer é o melhor jogador de todos os tempos.

Nadal sagrou-se campeão pela primeira vez na Austrália, título que Federer já conseguiu três vezes. Federer viu Nadal viver seu primeiro ápice, caindo no chão com os braços abertos, e rapidamente levantando para cumprimentar o oponente suiço. Talvez o mais cruel desse esporte não seja nem mesmo a obrigatoriedade de falar na premiação, mas a espera, sentado, na quadra. Para os espectadores é o momento de euforia, de gritar e aplaudir de pé o campeão; este se vê rodeado de glórias, e para todo lugar que olhar ao redor do quadra, haverá alguém o saudando como vencedor. Do outro lado, o tenista derrotado precisa esperar. E por mais que abaixe a cabeça, ele faz parte dessa mesma festa e escuta os gritos e aplusos da torcida, esperando que fossem pra ele, mas não são. Federer já experimentou os dois lados da estória – assim como Nadal – mas hoje o suiço não aguentou.

Quando ouvi Federer, na premiação, dizendo que aquilo era muito difícil para ele, imaginei que ele, como sempre, diria que Nadal era um adversário duro e não tinha dado para ele dessa vez. Mas Federer não conseguiu falar. “Deus, isso está me matando”, foi uma frase sincera e difícil, e o suiço não aguentou e chorou. Não um choro contido, e não o choro do campeão, que sempre emociona – Federer desabou em frente ao mundo inteiro e só conseguiu falar depois, mesmo assim muito emocionado. Já vi atletas chorarem após derrotas – em entrevistas, pedindo desculpas para a  torcida, sentados no campo, abraçados aos companheiros, escondidos no banheiro. Mas nunca tinha visto alguém chorar tão genuinamente e principalmente, nunca vi ninguém lamentar uma derrota e me parecer tão sozinho. Federer não chorou para se desculpar, para sentirem pena dele, não creio nem mesmo que por perder um torneio de Grand Slam, ou por ter estado irreconhecivelmente mal no último set. Federer chorou para ele mesmo. Não cabe a ninguém dizer o porquê do choro, talvez nem ele saiba, os palpites são muitos: Federer percebeu que não consegue mais ganhar de Nadal, vislumbrou que, mesmo com o dobro de títulos de Grand Slam, pode ser que o espanhol seja quem esteja mais perto de conquistar as quatro edições do torneio, pensou em como antes era fácil e agora de difícil tudo parece ser impossível. Pode ter sido tudo isso, nada, uma combinação de todos esses fatores. Ou pode ter sido o que é crucial e mortal para um atleta: Federer ficou em dúvida. Em todos aqueles momentos de espera, e depois na entrega dos troféus, acho que Federer consigo mesmo se colocou em dúvida: será, que algum dia, eu vou ganhar desse cara de novo? Não vejo sentimento pior para qualquer pessoa do que duvidar de ser capaz de fazer algo que já fizera. Para um atleta, é infinitamente pior do que perder sabendo que podia ter ganhado: nesse caso, há sempre a possibilidade de uma próxima vez – como, obviamente, há para Federer – mas a partir do momento que duvida de si mesmo, o mundo, os títulos já conquistados, os prêmios e o dinheiro que possui por alguma razão desaparecem e o atleta se vê sozinho, com a dúvida, sua pior companheira. Não posso afirmar que foi isso que Roger Federer sentiu hoje ao chorar no Aberto da Austrália, mas enquanto o vi tão completamente humano e me parecendo tão sozinho, desejei que, sendo ou não este o motivo, o suiço espante qualquer tipo de dúvida que o vier a acometer.

Novembro 2, 2008

Sim: Automobilismo é esporte

Sempre tive uma tendência a achar que automobilismo não é esporte. Um pouco por birra por tamanha exposição de um esporte necessariamente restrito a poucos, um pouco por achar que as “máquinas” – os carros – definiam tudo, e muito por meus conhecimentos limitados a seu respeito. Continuo com a mesma birra, a mesma opinião a respeito dos carros, e com um conhecimento restrito. Mas hoje, percebi meu erro, ao descobrir que o esporte não está nem nas pistas nem nos carros, como também não está nos maiôs nem na piscina, no campo ou nos uniformes dos jogadores, mas nos atletas. Automobilismo é feito de carros superpotentes, de um negócio milionário, equipes e muita publicidade, mas há o motor fundamental sem o qual não existiria – os pilotos. Os atletas.

 

Ano passado, Massa viu seu companheiro de Ferrari Kimi Raikkonen levar o Campeonato na última corrida, após uma combinação incrível de resultados e erros de Alonso e Hamilton, os dois também com chances de levar o título. Massa, inclusive, estava na frente durante boa parte da corrida, realizada no Brasil, e como parte da estratégia da Ferrari colaborou para que Raikkonen assumisse a ponta. Um ano antes, Massa havia sido o primeiro brasileiro desde Senna a vencer um Grande Prêmio do Brasil. Este ano, ganhou mais uma vez, mas por um ponto, na última corrida, Hamilton levou o título.

 

Após a corrida, ainda no carro, as câmeras pegaram a imagem de Massa chorando ao tirar seu capacete. O piloto saiu do carro, bateu no peito e apontou para o público, emocionado com o que acabara de viver. Faltando duas voltas, o impossível aconteceu: Massa estava na frente e Hamilton era ultrapassado, ocupando a 6ª colocação, a combinação de posições exatas para o brasileiro levar o troféu de campeão. A equipe da Ferrari assistia sem poder acreditar. A McLaren também. No ano passado, Hamilton já havia perdido por 1 ponto, deixaria escapar de novo o título que estava em suas mãos? A torcida brasileira acompanhava empolgada, também sem acreditar que o impossível acontecia. Uma vitória assim, e ainda no Brasil, depois de mais de uma década sem Senna e 17 anos sem um título! Mas a 500 metros do fim, não bastou o Brasil inteiiro ser Vettel desde criancinha, como pediu um eufórico Galvão Bueno. Hamilton ultrapassou Glock a 500 metros do fim, e em 5º lugar, não subiu ao pódio, mas levou o Campeonato por um mísero ponto.

Um mísero ponto, parecido com um mísero centésimo que levou Cielo a final de 100 livre nas Olimpíadas. Parecido com o único erro de Diego Hypólito na série que é sua especialidade, e justo na hora mais importante. Ou com um gol no último minuto que tirou o São Paulo da Libertadores e manteve aceso o sonho do Fluminense esse ano. “Corrida é assim”, disse Massa na entrevista, e depois completou: “O esporte é assim”. Hoje Massa vai dormir pensando em por que, no longínquo GP de Mônaco, o safety car teve que entrar a atrapalhar sua corrida; por que, no fatídico GP da Hungria, o sempre perfeito motor da Ferrari teve que falhar e fazê-lo sair da corrida faltando três voltas. Vai se pegar pensando, quando a imprensa acalmar, os programas e entrevistas passarem, quando a poeira baixar, por que raios Glock não segurou só mais 500 metros, por que os mecânicos erraram tantas vezes, e tantas coisas que fogem de seu controle: poderia ter chovido naquele GP, poderia ter ido melhor naquele treino e saído na pole, alguém poderia ter ficado em 3º em tal ocasião deixando Hamilton em 4º, tudo poderia ter acontecido diferente e em qualquer lugar vai achar um ponto, o ponto que faltou. Mas o esporte é assim. A “derrota”, se ser o 2º lugar melhor do mundo em alguma coisa puder ser chamada assim, é também a vitória de Hamilton, que do seu lado vai se lembrar em êxtase de cada ponto que conquistou, ou que algum outro piloto ganhou ao invés de Massa, da combinação perfeita que culminou numa vitória emocionante após a decepção do ano anterior. No esporte, milésimos, pontos, erros, acertos, se combinam e contam a história de personagens, com raivas, medos, desejos, sonhos, histórias de vida. Hoje descobri que o automobilismo, como os outros, é feito desses personagens. Então, sim: o automobilismo é esporte.

Julho 14, 2008

O caso Dantas e a Lei seca

Em vigor desde 20 de junho deste ano, a Lei Seca prevê multa de 955 reais, perda do direito de dirigir por um ano e retenção do veículo para motoristas que ultrapassarem o limite de 2 decigramas de álcool por litro, o que corresponde a 1 copo de chopp. A partir de 6 decigramas, à pena soma-se a prisão do motorista. Os testes são feitos por bafômetro, e caso se recuse a fazê-lo o motorista pode ser levado pelo policial a fazer exame de sangue, exame clínico e em último caso, é levado a um médico do Insituto Médico Legal (IML).

A reação à lei era esperada. Associações de bares e comércio reclamaram, motoristas questionaram a rigidez do limite e encontraram-se falhas na lei, tanto no aspecto de sua formulação – desconsiderar a margem de erro, necessária para qualquer tipo de medição – como no aspecto legal. Duas liminares já foram concedidas e deve vir mais por aí. A brecha da vez foi o artigo que assegura, na Constituição, o direito do indivíduo de não produzir provas contra si mesmo, lei esta que invalidaria a necessidade do motorista a se submeter ao teste do bafômetro. A Abrasel, Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, foi além e entrou com ação no Supremo Tribunal Federal alegando que a lei fere também o direito de ir e vir.

A consequência da lei também não foi uma surpresa. Não se discute a incompatibilidade entre bebida e direção, e o que se viu foram quedas nas mortes tanto nas estradas federais como no trânsito, além da diminuição de pacientes nos leitos de hospitais vítimas de traumas por acidentes desse tipo. No primeiro final de semana de julho, 10 dias após a aprovação da lei, as quedas foram de 45,5% nas mortes em rodovias federais e 19% no atendimento de hospitais de São Paulo.

Os resultados positivos não foram, entretanto, suficientes para validar a lei. Todo tipo de argumentos foi usado posicionando-se contrariamente: “Se é assim, tem que melhorar o transporte público”; “A lei acaba sendo elitista, porque só vai sair quem pode pagar táxi”;  ”O limite é muito rigoroso, ninguém fica bêbado com um chopp”. Tem que melhorar mesmo, talvez saia mais quem pode pagar táxi, o limite talvez seja rigoroso, sim, mas nenhum dos argumentos pode ser suficientemente forte frente à situação caótica e ao descontrole vivido no trânsito. Muitos concordam que o limite anterior era melhor, e de fato o limite atual é provisório e talvez seja revisto, mas a rigidez é necessária, pelo menos inicialmente, para que a lei “pegue”, no jargão utilizado para referir-se à incorporação da lei por parte dos indivíduos.

Mas o ponto mais importante aqui é a discussão acerca do direito de não produzir provas contra si mesmo. Não se trata de contestar a Constituição, mas esse episódio merece uma crítica às inúmeras interpretações e possibilidades advindas da lei. Não só neste episódio, essa peculiaridade legal atravanca processos, distorce posições da sociedade e têm-se a impressão que para qualquer ação, se munidos de um bom advogado e de alguma lei em mãos, tudo pode ser contestado mesmo que sirva para o bem da sociedade. Leis são necessárias, mas o são justamente para regular o convívio social e é óbvio que qualquer lei restringe em algum grau a liberdade dos indivíduos – mas sem elas, a vida em sociedade seria impossível. Por mais que sirvam a este fim, muitas vezes as múltiplas interpretações da lei aplicadas a cada ação pontual acabam, no conjunto, sevindo mais às vontades individuais que as da sociedade.

 

O banqueiro Daniel Dantas, formado em Economia e Engenharia, consultor econômico do PFL nos anos 90,  criou em 1994 o banco Opportunity e desde então envolveu-se com a gestão de fundos estatais com capital privado, estando na mira da investigação federal desde 1998, por suspeitas de favorecimento ao seu banco na época das privatizações de FHC. Desde então, Dantas construiu uma estrutura de poder que envolvia corrupção, tráfico de influência e setores de comunicação. Ligado ao escândalo do Mensalão, por suspeitas de ligação de suas empresas e do banco com o valerioduto. A operação Satiagraha, da Polícia Federal, que culminou na prisão dele e de mais onze investigados no caso (entre eles o ex-prefeito Celso Pitta e o megainvestidor Naji Nahas), começou há quatro anos, na época da CPI dos Correios.

O caso, apesar de longe de estar resolvido, colocou pela primeira vez o banqueiro na cadeia e dispõe de documentos substanciais que colocarão Dantas em uma situação complicada – os trabalhos foram feitos a partir de dados obtidos em computadores da Opportunity apreendidos no início das operações em 2004.

Subjacente ao caso do banqueiro, chamaram atenção as reações do Congresso – que alternou silêncio sobre o caso e críticas ao uso de algemas e à espetacularização da PF, desviando o foco dos crimes de que Dantas está sendo acusado. Admite-se a existência de uma “bancada Dantas” no Congresso Nacional, que uniria paralmentares da oposição e do governo que possuem ligação com o banqueiro.

Mais notória ainda foi a reação do Judiciário. Impressiona a rápida movimentação de Gilmar Mendes, ministro do Supremo, que concedeu habeas corpus liberatório em dia de feriado em São Paulo, mobilizando instânicas judiciárias e concedendo a liminar com muita rapidez. Mais do que a questão da disputa de poder entre o STF e a 6ª Vara Criminal de São Paulo – que representa a primeira instância de Justiça Federal – o que salta aos olhos é a disparidade entre o tratamento dado à Dantas e a morosidade e burocracia caracterísitcas da Justiça. Em sua coluna de domingo da Folha de São Paulo, Eliane Cantanhêde destaca o cansaço do povo em ver o conhecimento jurídico usado para justificar decisões como a soltura de Dantas, enquanto a lei não vale para todos. É de se estranhar a preocupação de Gilmar Mendes em aplicar com tanta rapidez e eficiência o direito do banqueiro de permanecer em liberdade por não representar risco à sociedade. Ainda mais sabendo-se que se trata do topo da hierarquia de uma organização com alto poder de corruptar e intimidar pessoas, partidos e governanetes, e possibilidade da ocultação de provas que o sejam desfavoráveis.

 

Guardadas as devidas proporções, os dois casos tratam da utilização das leis e do amparo de quaisquer tipo de ações a partir delas. No caso da lei seca, a idéia de liberdade individual assegurada em lei é usada para barrar benefícios a toda sociedade e a idéia de lei como mecanismo para garantir o convívio social é colocada em segundo plano. No caso de Dantas e a pressa em garantir seus direitos estritamente legais, contrapõe-se o tratamento dado a um indivíduo e o retrato de lentidão da Justiça Brasileira, contribuindo para a imagem de impunidade e de apatia do povo diante das leis – que não só é impotente para mudá-las, como não as entende e assiste atônito à sua utilização desmedida e contraditória.

Julho 6, 2008

Publicidade na Web: muito mais que banners e pop-up

Faltam poucos minutos para o início da aula e só mais uma informação para terminar aquele trabalho que você deixou para a última hora. A internet é lenta e, para piorar, a página não está abrindo. Depois de tanta demora para carregar, salta aos olhos uma pop-up com um anúncio e sua raiva aumenta. Pior do que não prestar atenção, é bem capaz de você transferir a raiva para o produto anunciado, e rejeitar a publicidade tão intrusiva. 

Pesquisa da Deloitte, empresa suíça de auditoria, afirma que 25% dos americanos pagariam para ter conteúdo sem publicidade, e 75% consideram a publicidade na web mais intrusiva do que nos gêneros impressos. Não há dados para o mercado brasileiro, mas a pesquisa ajuda a explicar um dos motivos – formatos ainda pouco desenvolvidos e atraentes para o consumidor – pelo qual o percentual reservado à internet ainda é tão pequeno no bolo da publicidade no Brasil, embora tenha sido o que mais cresceu no último ano.

Em 2007, o mercado publicitário brasileiro teve faturamento total de 19 bilhões de reais. O número, que representa um crescimento de 9% em relação ao ano anterior, é composto por nove tipos de mídia – Cinema, Guias e Listas, Internet, Jornal, Mídia Exterior, Revista, Televisão e TV por Assinatura, segundo classificação do Projeto Inter-Meios. Os meios tradicionais continuam sendo os líderes de investimentos – a Televisão lidera com R$ 11,2 bi, seguida de Jornais e Revistas, respectivamente com R$ 3,1 bi e R$ 1,6 bi.

Entretanto, a liderança das mídias tradicionais esconde uma realidade de crescimento de outros tipos de mídias, que em 2007 tiveram aumento mais significativo. Sob este aspecto, a mídia que teve maior crescimento foi a Internet, com aumento de 45,7%, segundo estudo do Inter-Meios, realizado pelo Grupo M&M. O número é quase o dobro do crescimento do segundo meio que mais cresceu, o cinema, com aumento de 23%. Em números absolutos, foram investidos 526 milhões de reais em publicidade na web, número que representa de 2% a 2,7% do mercado, variando de acordo com a metodologia adotada.

Só no primeiro trimestre de 2008, a publicidade brasileira faturou 4,1 bilhões de reais, o que representa aumento de 15,48% em relação ao mesmo período do ano passado. Desses bilhões, 134,2 milhões foram destinados à Internet, que em março abocanhou 3,2% dos investimentos publicitários. Em comparação ao mês de março de 2007, a Internet passou à frente de Guias e Listas, TV por Assinatura e Mídia Exterior.

O crescimento significativo da publicidade na web pode ser explicado em parte pelo aumento de crédito para aquisição de computadores, que incluiu a classe C no mapa dos compradores do aparelho. Impulsionado por isso, cresceu o número de pessoas com acesso à internet em casa, abrindo o alerta para as empresas sobre a necessidade de investir nesse meio, seja para fornecimento de serviços online, seja direcionando parte de sua publicidade. O número de pessoas com acesso à rede chega a 39 milhões, segundo dados do IBOBE/Net Ratings, dos quais 22 milhões correspondem a usuários com internet em casa.

Mercado
Os números relativos à publicidade online dividem os profissionais do mercado. Ivan Rysoras, diretor de mídia da DPZ, agência de publicidade criada em 1968 e com clientes do porte de Bombril, Petrobrás e Souza Cruz, acredita que os 2% a 3% de participação da internet não podem ser considerados um número pequeno. “No Brasil, há alguns meios que ainda estão muito arraigados na cultura, como a televisão e mesmo o que se propaga de inserção da classe C deve ser relativizado: cresce a venda de computador, mas e a conexão? E o acesso? Tudo isso deve ser levado em conta”. Apesar das ressalvas, Ivan confirma a tendência e acredita que a internet ganhará cada vez mais espaço, principalmente com a crescente fragmentação da audiência – cada vez mais os produtos são direcionados a um público específico e não mais ao público de massa.

Pedro Murray, sócio da Agência Ginga, aponta algumas saídas para ajudar no aumento da participação da internet no bolo total da publicidade no Brasil. A agência, que é especializada em novas mídias, investe em formas criativas de se chegar ao consumidor. “Um dos problemas é que ainda não se sabe muito bem como fazer publicidade na internet. O banner, um dos modelos mais utilizados de publicidade na web, não é um formato bom, é quadrado, feio. O mesmo vale para pop-up, que muitas vezes não é bem vista pelos internautas”, e completa: “Os formatos tradicionais conseguem ser mais “indolores”: quando você vê um outdoor, acaba sendo atingido pela propaganda sem perceber. Pedro propõe formatos criativos para chegar ao cliente, o que é a essência da Agência Ginga, especialista em novas mídias. Com clientes como Playarte, Motorola, LG e Paris Filme, a Ginga foi a idealizadora da campanha de lançamento do filme “Tartarugas Ninja, o retorno”, que chamou a atenção do público com uma projeção de guerrilha urbana em um prédio de 25 andares da Avenida Pauslita, em abril de 2007.

Do lado das empresas, o montante de investimentos direcionados para a internet varia de acordo com o segmento. Para Ivan, da DPZ, as empresas mais ligadas à tecnologia já estão mais habituadas ao meio. Além dessas, o setor bancário também tem aumentado os investimentos em publicidade online. Isso se deve em grande parte à tendência seguida pelo setor de aumentar a disponibilização de serviços na web – dos mais elementares, como pagamento de contas, depósitos, e consulta a saldos, até serviços de homebroker (assistência online para investir em ações na Bolsa).

Outro setor que investe em publicidade online é o de montadoras de automóveis. Fábio Souza, coordenador de webmarketing da Volkswagen diz que 7% do orçamento de propaganda da empresa são investidos na internet. “Investimos em internet desde 2001. Além disso, nosso site é totalmente interativo, e o cliente pode simular a montagem do carro que preferir”.

Um dos pontos comuns entre agências e empresas é que o investimento em internet deve aumentar nos próximos anos, mas depende muito do segmento e do público-alvo da empresa. Pedro Murray, da Ginga, acredita que setores mais ligados à tecnologia têm mais chance de se firmarem. “Os clientes desse tipo de produto são mais acostumados a utilizar a internet para se informar e até para comprar os produtos. No caso destas empresas, é mais fácil aumentar a participação da publicidade na internet”. A projeção de pesquisa da WebTraffic, empresa de marketing online, é que o setor cresça até 80% em 2008, passando a representar um total de 4,5% do bolo total dos bilhões investidos em publicidade no Brasil.

Maio 8, 2008

A hora e a vez de Joanna Maranhão

Falar em esporte é falar em coragem, determinação e muito treino. Coragem de abrir mão de muita coisa, de enfrentar os próprios medos, de enfrentar qualquer adversário. Determinação de ter uma vida regada a sacrifício e de levantar quando se cai. Muito treino, físico e mental, para agüentar a porrada que é competir. Mas falar em esporte fica muito mais fácil quando se fala em personagens, de carne e osso, com particularidades e histórias que personificam esse tipo diferente e mágico de lutar. Hoje três nadadoras brasileiras subiram um degrau no esporte, alcançando o índice olímpico e carimbando o passaporte para Pequim.

Gabriella Silva confirmou uma previsão que se lançou como realidade no Sul-Americano deste ano, em março, quando foi a primeira nadadora brasileira a nadar abaixo de 1 minuto nos 100 borboleta. Precisava de 59.35 para se tornar olímpica. 20 anos, carioca, se mudou para São Paulo para nadar no Pinheiros em 2006. Hoje fez história de novo e nadou para 58.90.

Daynara de Paula, 19 anos, foi a surpresa do dia. Aquele resultado que todos acham inesperado, até ouvir que ela tinha um quadro no quarto com o tempo pretendido e uma contagem regressiva para a competição, e entender que ao mero público, às previsões e às apostas, sempre escapam esses detalhes que fazem de cada nadador único e de cada sonho por eles sonhado algo que só vemos em um dia, mas que eles sonham a vida inteira. Para todos foi uma surpresa. Para ela, o 59.30, 2 segundos abaixo de seu melhor tempo e míseros 5 centésimos abaixo do índice, foi um alívio.

Joanna Maranhão. Pernambucana. Mulher de fibra forte, controversa, cheia de sonhos, cheia de dúvidas, cheia de contradições: humana. Cheia de talento, sacrifício, cheia de treinos: atleta. Hoje era o dia, hoje era a hora e a vez de Joanna Maranhão. Desde Atenas, em 2004, quando foi 5° lugar no 400 medley, Joanna teve altos e baixos – assim como qualquer nadador e pessoa tem, mas com o agravante de se tornarem públicos. Chorou na TV dizendo que estava difícil ficar sem melhorar. Foi para os EUA tentar o que para muitos dá certo mas para ela não deu. Brigou com dirigentes, não mediu palavras, ficou de saco cheio, viveu tudo que qualquer garota de 20 anos vive, foi pra balada, começou a beber, começou a namorar. Pensou mil vezes em parar. E poderia ter parado, que não deixaria de ser Joanna Maranhão para ela e para os que a amam, disso Joanna não pode ter dúvidas. Mas Joanna continuou. Voltou para o técnico antigo com quem havia brigado, abriu mão de muita coisa, emagreceu. Se envolveu em polêmica quando declarou que foi vítima de abuso sexual quando criança. Decisão controversa? Sim, como o é Joanna, como somos todos. Perdeu o tio há poucos meses, chorou muito, trouxe a família para São Paulo para ver sair o índice no Sul-Americano, mas entrou aqui o imponderável, que tantas vezes surpreende para bem, e dessa vez surpreendeu mal, e Joanna não conseguiu. Ficou para a úlitma seletiva, para ser mais lindo, mais emocionante. Emocionante, todos esperando uma prova linda, e foi! Poderia não ter sido, mas que bom que foi. Independente disso, esses quatro anos fizeram de Joanna outra mulher. Ela mesma disse, que para Atenas, o índice veio tão fácil que parecia algo natural. Comparando com César Cielo e Thiago Pereira, Joanna está em outro patamar. Por um lado, não está acumulando performances fantásticas e previsões de pódios olímpicos. Por outro, Joanna alcançou o que poucos conseguem, que é o sabor da vitória com aquele gosto de volta por cima. E não falo fazendo um apelo a trajetórias de quedas e retornos triunfais, falo daquela coragem que citei acima, de se abrir para o mundo. Não vemos César falando que está difícil, pouco sabemos de sua vida pessoal, e o mesmo vale para Thiago. Nenhum dos dois está errado, mas tampouco Joanna está em fazer o contrário. A pernambucana sofre, se expõe, se mostra na sua face mais humana, grita para o mundo que é atleta dentro d’água mas que tem uma vida inteira fora dela também.

Em 2004, Joanna era um fenômeno. Hoje, se tornou atleta.

Abril 28, 2008

Na reconsituição do caso Isabella, multidão pede justiça e jornalistas ganham área vip

São 8 horas de domingo, dia 27 de abril, e na Rua Santa Leocádia, bairro da Zona Norte de São Paulo, um homem carregando uma cruz responde a perguntas de uma jornalista. João está desde o dia anterior a tarde na entrada da rua onde, há quase um mês, Isabella Nardoni foi assassinada e jogada do sexto andar de seu prédio, o Edifício London. Com placas penduradas na cruz, que diziam “Fui morta pelo amor de meu pai, que me amava”, e pedidos “Condenai-vos, pai, porque eles sabiam o que estavam fazendo”, João estava com a boca presa e filosofava: “A verdade está amordaçada”.

Entendida pela polícia como fundamental para o andamento do caso, a reconstituição começou ás 9h30 de domingo e envolveu um forte esquema de segurança, com a rua sendo fechada no sábado de tarde. Só era permitida a entrada de policiais, peritos e investigadores ligados ao caso, e jornalistas credenciados.

Cheguei na rua Santa Leocádia ás 8h, com o intuito de ajudar um amigo a fazer uma reportagem sobre os bastidores da cobertura do caso. A essa hora, poucos curiosos estavam no local. João não era o único a expressar seu descontentamento, e um homem de São Bernardo nos abordou quando viu a câmera: “vocês são da Globo?” Mesmo com a resposta negativa, pedimos que ele nos concedesse uma entrevista, ao que ele gentilmente aceitou. Filmei os dizeres “vocês da emprensa fazem belo papel, estamos todos descontentes e queremos justiça”, enquanto, no microfone, o homem chorava emocionado e mandava um abraço para os companheiros de São Bernardo.

Passei pela barreira da rua por tabela, meu amigo com uma credencial do Estadão e eu com uma câmera na mão logo atrás dele. Muitos policiais do GOE – estima-se que passavam de 60 homens – estavam no local. Em frente ao prédio, uma cerca reservava o local restrito à imprensa. Torres de TV paradas na rua e estruturas que comportavam câmeras e repórteres estavam montadas; no chão, jornalistas da Folha, Estadão, Radio Jovem Pan FM, Record, Rede TV, Band, Globo e Globo News. Uma escolinha infantil do outro lado da rua, um pouco a esquerda do prédio, servia de base de gravação para uma das emissora. No prédio bem de frente para o prédio da família Nardoni, os moradores alugavam suas casas para fotógrafos e câmeras, que conseguiam dali ângulos e tomadas melhores.

O prédio é menor do que aparenta na TV, e se destaca no meio da rua por ser um dos mais altos e bonitos. O jardim onde Isabella caiu é muito pequeno, e a rua, estreita. A impressão de que quando alguém vem dar uma informação os jornalistas se estapeiam para falar não corresponde ao que eu vi: nas duas vezes que uma das responsáveis pelo caso (que um repórter da Jovem Pan chamou de “organizadora do evento”) vinha informar as novidades, os jornalistas se concentravam no local, mas o clima era mais de colaboração – quem estava ao fundo não podia ouvir e pedia informações para quem estava mais à frente. Em todo o resto do tempo, alguns apuravam informações ao telefone e outros passavam reportagens para a redação pelo telefone. Do meu lado, duas antigas amigas de faculdade, uma da Record e outra da Rede TV, combinavam de começar a fazer academia juntas e elogiavam os cabelos uma da outra.

A reconstituição já havia começado, mas até 10h30 pouco podia se ver do lado de fora, uma vez que tudo começou na garagem. A entrada de carros da polícia e de peritos no prédio foram os únicos momentos que causaram certa movimentação da imprensa, e o clima de descontração permanecia. Era consenso que todos estavam muito cansados do caso, alguns cobrindo há um mês, cerca de 14 horas por dia. Thais, uma das duas amigas, nos disse “Estou rouca por causa do caso Isabella”.

Em uma rodinha com repórteres da Jovem Pan, chega um repórter da Folha, identificado como “Japonês”. Começam elogios e rivalidades: “Só tem quatro caras firmeza na Folha. O Japonês é um deles. O resto é tudo gay e se acham, chegam num lugar falando ‘ai, eu sou da Folha’”. Empolgado, Japonês não hesita em atender o pedido dos colegas e canta sua versão da música do Tropa de Elite para o caso Isabella: “Para papapapapapa Pára Pai”, ao que todos riem e aplaudem com gosto.

De tempos em tempos o repórter da Jovem Pan imita o povo do lado de fora da rua “Justiça! Justiça” e provoca risadas. “Se eu não tivesse nada a ver com o caso e não fosse jornalista, nunca que ia perder meu tempo aqui”. O maior pedido de todos era que tudo acabasse antes das 16h, para que pudessem ver a final com Campeonato Paulista, entre Palmeiras e Ponte Preta. Uma mãe e uma menina do prédio aparecem na janela do segundo andar, e alguém diz: “ih, olha ali, a mãe vai jogar a filha também”. As risadas permanecem e do outro lado da rua a multidão aumenta.

Entrevistamos Laura Capriglione, repórter da Folha, que considera um exagero tanto a reconstituição (“Vários peritos renomados com quem conversamos disseram que isso não traz quase nenhum benefício”) quanto o espaço reservado aos jornalistas (“Essa coisa de cadeirinha é uma novidade. Parece um show. Da última vez tinha até gente entregando garrafinha de água”). Vindo direto da Virada Cultural, que acontecia na cidade desde ás 18h do sábado, Laura se dizia, também, cansada do caso.

Sai da parte reservada ás 11h, e do lado de fora da rua, a quantidade de pessoas era muito maior. Havia grupos organizados, com placas e bandeirinhas com a foto de Isabella; pessoas sozinhas, moradores da região e gente que vinha de muito longe, para ver pouco, menos do que os jornalistas que tampouco tinham muito o que assistir.

Abril 16, 2008

Todos Pela Educação

O Todos Pela Educação é um compromisso intersetorial, envolvendo a iniciativa pública, privada e a sociedade civil com um objetivo claro definido: garantir Educação de qualidade no Brasil. Simbolicamente, foi escolhido o dia 7 de setembro de 2022 como prazo para que as cinco metas do programa, principal bandeira do Todos Pela Educação (TPE), sejam alcançadas. A data marca o bicentenário da independência e, segundo Alice Andrés, coordenadora de pesquisa e conteúdo da iniciativa, “reflete a idéia de que só seremos realmente independentes no Brasil quando todos tiverem acesso a educação de qualidade”.

Surgido oficialmente em 2006, o TPE começou a ser gestado em 2005, por diferentes setores da sociedade que resolveram se mobilizar em prol da educação. “Desde o início tivemos o apoio irrestrito do MEC (Ministério da Educação), do Consed e da Undime, representantes dos secretários e dirigentes municipais de educação, respectivamente”, explica Alice. “Além deles, universidades, educadores, fundações e a iniciativa privada, que foi quem colocou dinheiro pesado, como a Gerdau por exemplo”. A idéia do compromisso é unir esforços intersetoriais para um assunto que, para os idealizadores do projeto, deve envolver toda sociedade.

Embora seja aclamado pelo governo, o programa é apartidário e com uma inspiração genuinamente republicana e democrática, segundo Alice. O lançamento do Todos Pela Educação por acaso coincidiu com o lançamento do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), do ministério da Educação, que colocou a idéia de qualidade da educação no foco do governo (leia mais sobre o PDE no quadro abaixo). “Apesar das semelhanças, somos independentes, o TPE não tem nada a ver com o PDE, são coisas diferentes”, garante Alice. “O principal é transformar a educação em um plano não mais de governo, mas de Estado”. Alice é otimista, e mesmo quando confrontada com os dados atuais da educação acredita que em catorze anos será possível alcançar as metas propostas pelo TPE. “Somos ambiciosos”, diz.

E as metas são, de fato, ambiciosas. A idéia central é dar um foco em qualidade, agora que o ensino está quase universalizado. Mas mesmo esta questão ainda não está resolvida: “Na meta 1, por exemplo, já temos 97% das crianças na escola. Mas os 3% que faltam representam 800 mil crianças”, diz Alice, citando um dos dados usado na abertura do site do movimento. “Para crianças de sete a catorze anos, estamos quase lá. Mas de quatro a seis anos, e de 14-17, a situação é complicada. Aí é muito difícil mesmo”. Uma das teses defendidas por Alice para legitimar a possibilidade de cumprir as metas é de que quando um índice está muito ruim, é fácil dar um salto. “A meta 2 é um desses casos. Só 5% das crianças até os 8 anos está alfabetizado. Esse número é um absurdo, e por ser tão baixo é mais fácil de melhorar. Já na meta 1, como já falei, a universalização está quase pronta. Um salto de 97% para 98% é muito mais difícil nestes casos”

A atuação do Todos Pela Educação está ancorada em um tripé que consiste em ações direcionadas à demanda, oferta e informação. No caso da demanda, entendida como “todas as pessoas interessadas em Educação”, estão concentrados os esforços em informar as pessoas, um dos focos do TPE. Foi lançado no final de 2007 o portal “De Olho na Educação”, que agrupa diversos dados sobre Educação. “Há uma enorme quantidade de dados, mas eles estão muito dispersos, em relatórios do IBGE, Pnud, Ideb. Tentamos juntar tudo em um único local para facilitar o acesso”, explica Alice. Além de disponibilizar informações, o TPE contrata pesquisadores para fazer análises dos dados. “Lançamos agora o Diálogos pela Educação, com a intenção de fomentar pesquisas na área”. A primeira pesquisa desse projeto acabou de ser terminada por Mario Aquino e Fernando Abrucio, cientistas políticos e professores da FGV, que elaboraram um manual de melhores práticas educacionais, batizado de “Parâmetros para uma Educação de Qualidade”.

O segundo braço, ligado à oferta, consiste em influenciar governos. “Agimos para que eles aceitem as cinco metas”, diz Alice. Atualmente, ela trabalha com um documento que será lançado em setembro deste ano, intitulado “De Olho nas Metas”, para mensurar os indicadores e monitorar se as metas estão sendo atingidas. “Temos metas intermediárias, pois se for esperar chegar 2022 para medir sabemos que não dá certo. Tem que observar sempre”. A ação se limita ao nível dos governos, e não há ainda nenhum projeto direto que chegue ao nível das escolas. “Não queremos controlar tudo, acredito que somos mais a ignição”, diz Alice. Uma das decisões do compromisso foi não criar um selo TPE ou apoiar projetos de terceiros, devido principalmente à dificuldade de avalia-los e julgar seu funcionamento.

A terceira e última frente é ligada à informação. Além do portal que contém todos os dados de Educação, há também o trabalho de clipagens diárias, sugestões de pautas para jornalistas e uma campanha de divulgação que envolve principalmente TV e rádio. “Este ano vamos refinar o que já começou. Tem propagandas passando na Record, e fizemos com a Rede Globo uma matriz que cruza os programas da emissora com educação, mostrando como cada um pode ajudar” diz Alice. “Tem até cena de novelas que foi proposta da gente, incentivando indiretamente a educação”. Para o TPE, é essencial mudar a imagem atual que se tem da pessoa inteligente, logo associada à figura do nerd. Os meios de comunicação são importantes para agir no imaginário das crianças, incentivando a educação desde cedo e fazendo a associação com algo positivo.

Passados um ano e meio do lançamento do programa, Alice se diz feliz com o trabalho. “O Todos Pela Educação é muito dinâmico, flexível, a gente muda e corre atrás toda hora”. Para a coordenadora de conteúdo, o principal é que o projeto já mostra que dá resultados. “O acompanhamento da educação mudou, tem saído bem mais na mídia nos últimos tempos”.

(+) SAIBA MAIS
PDE – Plano de Desenvolvimento da Educação

Lançado em abril de 2007 pelo ministro Fernando Haddad, o PDE, como é conhecido, é hoje a principal bandeira da área educacional e chegou a ser chamado de “PAC da Educação”. O programa inclui ações em todos os níveis educacionais, mas o foco principal é a educação básica de qualidade. Para isso, foram criados instrumentos como a Provinha Brasil, que passará a avaliar crianças até 8 anos para checar o nível de leitura. As metas do Todos Pela Educação foram incorporadas pelo PDE. “Não foi algo pré-pensado, mas quando surgiu o PDE, como havia muita semelhança entre o foco deles e as nossas metas, eles resolveram fazer essa homenagem”. Faz parte do PDE também um documento chamado “Compromisso Todos pela Educação”, com 28 diretrizes, assinado por todos os governadores estaduais. “A idéia de batizar o documento foi legal, mas estamos até pedindo para o nome ser alterado para Compromisso pela Educação, porque estava causando muita confusão entre o que é do Todos Pela Educação e o que é do PDE”, explica Alice.

Ideb – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica

O Ideb é um índice de qualidade do desempenho escolar, que relaciona o desempenho com o rendimento. Para chegar a ele, mede-se a nota tirada na Provinha Brasil e o tempo médio de conclusão de cada série. Pode ser calculado no nível da escola, do município, estado e também do Brasil. Pelos dados oficiais de 2005, a nota do Brasil é de 3,5 para o Ensino Fundamental e 3,4 para o Médio. A meta estipulada pelo governo é chegar à nota 6 em 2022, que equivale a nota dos países da OCDE.

Março 21, 2008

Soninha: “Ser prefeito tem a ver com visão de mundo, ideologia. E isso eu tenho”

As eleições para a prefeitura de São Paulo se aproximam, e como isso ganham espaço na imprensa os diferentes perfis e experiências dos postulantes ao cargo. Em meio às dúvidas sobre a candidatura do lado liberal – Kassab, Alckmin, ou os dois? – e a tentativa do PT de voltar a assumir a liderança da principal cidade do país, surge Soninha. Vereadora eleita pelo PT em 2006 –sendo a mais votada na cidade com total de 50 mil votos– Soninha foi para o PPS em setembro de 2007 e hoje é pré-candidata do partido para a prefeitura da metrópole.

Soninha é eclética, versátil, inteligente. Em seu blog, pode-se encontrar um post em defesa do movimento pela autonomia do Tibet em meio a opiniões sobre o jogo entre Bragantino e Palmeiras pelo Campeonato Paulista de futebol. E não se engane, ela sabe do que fala. Comentarista da ESPN, colunista da página de Esportes da Folha, VJ da MTV por 10 ano, formada em cinema pela USP. Dá aula de inglês como voluntária, faz traduções para seu centro budista e, por fim, exerce o último ano de seu mandato como vereadora de São Paulo. Tem duas filhas, a primeira delas nascida pouco depois de terminar o Magistério (que corresponde a um Ensino Médio técnico.). Já foi alvo de polêmica quando, em 2001, apareceu na capa da revista Época como uma das personalidade que assumia fumar maconha – o caso custou seu trabalho como apresentadora da TV Cultura.

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Em entrevista para a UOL na última quarta-feira, Soninha falou um pouco sobre suas idéias políticas. É uma pena que tenha se concentrado muito na questão do trânsito – que deverá ser a bandeira da campanha de todos os candidatos à prefeitura esse ano – e, embora tenha propostas interessantes neste aspecto, não se aprofundou em outros temas, como eduação, saúde e violência. Sua principal proposta é que para melhorar a mobilidade na cidade precisa-se mais do que um sistema de transportes melhor, de uma melhor ocupação do espaço urbano – nas palavras da vereadora, “fazer um uso mais misto do território: não é bom você ter um lugar onde as pessoas só trabalham e outro onde só dormem”. Para a vereadora, uma das soluções para o trânstio é trazer mais gente pra morar na região central e ao mesmo tempo levar mais trabalho para a periferia.

 

Soninha é independente, e isso se reflete em suas posições políticas. Após perder a eleição para deputada federal, a qual concorreu em 2006, em suas palavras, para “ser parte da bancada nacional que iria ajudar a refundar, a voltar às origens do PT”, se sentiu frustrada com a lógica dos partidos e voltou para a Câmara decidida a sair do PT e não entrar em mais nenhum. Até que veio o PPS, com a idéia de independência, de não precisar mais atacar ou apoiar outros partidos – idéia materializada no desejo de uma candidatura própria para a prefeitura, após já ter sido aliado do PSDB e do PT no âmbito estadual e nacional.

 

Talvez por conta dessa dita “independência” que conseguiu no PPS, Soninha relativiza suas opiniões e não assume posições radicais contra partidos ou políticos. Com ressalvas, fez elogios aos últimos prefeitos de São Paulo – que como mostrou Clóvis Rossi na coluna de hoje, passou pelos principais partidos nos últimos anos: o PSDB com Alckmin, o PT com Marta, e o PFL com Kassab. Diz que é contrária ao troca-troca, mas afirma que nem toda mudança de partido é fisiológica. Na metáfora matrimonial, afirma: “Sou contra a promiscuidade, mas não tenho nada contra o divórcio”. É nessa lógica que enquadra sua saída do PT rumo ao PPS – o motivo foi o desencanto com as escolhas políticas do partido, com a mudança dos quadros que o fundaram e nos quais ela acreditava. É uma das razões pelas quais refuta apoiar Marta, dizendo que por tudo isso se sentiria constrangida de apoiar o PT. E refuta também ser vice de qualquer um dos candidatos. Cobiçada por Kassab e Alckmin para o posto, Soninha nega e garante que nem ela nem o PPS abrem mão dessa independência política de que tanto fala.

 

A vereadora assume que não tem experiência administrativa e vai além, criticando a idéia de “bom gestor” para governar. “A cidade não é um supermercado. Ser prefeito tem a ver com política, está ligado a visão de mundo, ideologia, e isso eu tenho. O que precisa é montar um secretariado competente, chamar gente que entenda dos assuntos, em quem eu confie”. Soninha vai contra uma idéia que foi o principal mote da campanha de Geraldo Alckmin para a presidência em 2006. O assunto remete a outro fato interessante: na atual corrida presidencial nos Estados Unidos, nenhum dos 3 pré-candidatos tem experiência prévia em cargos executivos, o que não impede de tratar-se de um dos melhores debates de idéias e de uma das eleições americanas mais disputadas dos últimos anos.

 

A eleição de Soninha é improvável – na última pesquisa do Datafolha de intenção de votos, publicada em 16/02, Soninha aparece com 2% dos votos em todos os cenários (menos quando o PT entra com Chinaglia no lugar de Marta, onde chega a 3 pontos). Mas Soninha tem muito a falar. Tanto quando se trata da utilização de mão-de-obra escrava em oficinas de São Paulo – assunto da qual foi relatora da CPI da Câmara -, bem como quando o tema em pauta são os erros de arbitragem e os gols da última rodada dos campeonatos estaduais.

 

:: Para mais informações sobre a atuação da Soninha da Câmara, clique aqui.

Março 14, 2008

Novo Jornalismo: Convergência e Interatividade

Aconteceu hoje, no Centro Brasileiro Britânico, o último de uma série de debates em comemoração aos 70 anos da BBC Brasil. Colocando em pauta o chamado Novo Jornalismo, os debatedores – representantes de importantes canais de comunicação online, no caso BBC, MSN, Terra e G1 – falaram sobre convergência e interatividade, abordando um pouco da realidade, dos desafios e das perspectivas para as novas mídas da área de comunicação.

Pete Clifton, da BBC, e Márcia Menezes, do G1, tinham em comum o fato de estarem em veículos que já eram da mídia antes de iniciarem a incursão pelo meio digital. O contraste é visível quando se compara ao caso de Andrea, do MSN, empresa da área de softwares que resolveu, há 2 anos, investir também na parte de conteúdo online. Situação semelhante à Antônio Prada, diretor de mídia do Terra para a América Latina, cujo veículo foi feito especialmente para internet.

Quando a empresa já possui experiência em mídia, há o benefício de contar com know-how e estrutura para a geração de conteúdo, como é o caso do G1. Criado em julho de 2006 como o braço da Rede Globo na Internet, o site já entrou no ramo com a credibilidade da emissora mais vista no país. Com uma redação com mais de 80 pessoas, o site já é uma das principais referências entre sites de noticia. Entretanto, fazer parte das empresas Globo também traz desafios, não só ligados ao peso que carrega, mas principalmente ligados a convergência digital.

“Convergência nada mais é do que estruturar a mesma rede para TV, jornal, internet, rádio, celular, enfim, para todos os tipos de mídia”, explicou Márcia. “O problema é que o site não pode ser apenas um repeteco da TV”, completa.

Alinhar todas as mídias sem que uma “roube” o espaço da outra, ou apenas a imite, é um dos principais desafios. Um dos exemplos em que houve sucesso na complementação de informação foi o debate eleitoral de 2006. Acabado o Jornal Nacional, a equipe da G1 fez quase 3 horas de bastidores, com a chegada dos candidatos e a preparação para o debate, que aconteceu no Projac. Assim, “o site proveu um serviço único, que a TV não poderia dar, ao invés de simplesmente reproduzir o debate ao mesmo tempo na internet, o que não teria nada de inovador”, falou Márcia.

Se não possui essas facilidades, Antônio tem no Terra a vantagem de contar com uma empresa que concentra todos os esforços no sucesso da portal de notícias. Como o próprio diretor falou, “o que é notícia nos jornais hoje foi noticiado na internet ontem”, e a intenção é investir cada vez mais, dinamizando a disponibilidade de informações online. Orgulhoso, Antônio contou que o Terra deu em primeira mão a notícia sobre o furto de documentos da Petrobrás, o que, segundo ele, atesta a qualidade do jornalismo online, que não perde em qualidade para o jornal impresso.

Por fim, o assunto mais abordado nas perguntas, e um dos focos de todos os debatedores: interatividade. Pete Clifton, da BBC britânica, já começou o debate falando sobre a crescente demanda dos usuários por participar da construção do jornal – o conceito de “jornalismo participativo”. No caso da rede inglesa, isso se personifica na construção de perfis de cidades locais pelo público – qualquer semelhança com o Wikipedia não é mera coincidência, houve conversas e a construção de uma parceria para a idealização deste formato.

O Brasil não fica atrás em experiências em que o leitor assume papel menos passivo e ajuda na construção de notícias. A forma principal é quando o usuário manda notícias, vídeos e fotos. Além dessa tendência, os sites passam a criar mecanismos que permitam ao usuário personalizar seu site, selecionando assuntos de seu interesse e adequando a página ao seu próprio estilo.

“O principal cuidado é agregar informação sem perder o controle”, disse Márcia. “O espaço público cresceu, e isto é ótimo, pois funciona como um controle de qualidade sobre o que estamos fazendo. Em contrapartida, isso exige uma apuração jornalística muito forte, não dá pra publicar tudo que os leitores mandam”. Os limites éticos e jurídicos para esse novo tipo de mídia ainda engatinha. Pete também demonstrou preocupação e confessou que ainda não há limites claros sobre a responsabilidade que o veículo tem, com relação aos comentários postados, por exemplo.

Apesar das dificuldades, os palestrantes estavam confiantes. Ao serem perguntado pela platéia sobre as perspectivas sombrias para o jornalista, que com esse novo cenário precisa se adequar e ser “polivalente” conhecendo e dominando todas as mídias, o discurso dói otimista. “Não há nada de sombrio”, disse Andréa. “Há, sim, milhões de oportunidades sendo abertas em meios completamente variados. A Internet não acaba com emprego de jornalista, muito pelo contrário”