Quando eu tinha 11 anos e nadei meu primeiro campeonato paulista, a coisa mais importante da vida passou a ser ganhar uma medalha nessa competição. Não existia namorado. Não existia vestibular. Não existia trabalho, carreira, nem futuro que não fosse ser a melhor nadadora do mundo.
Eu sabia que a cada seis meses tinha essa competição me esperando, e em cada semestre treinava mais, melhorava mais, e chegava mais perto do meu objetivo. Não existia cansaço, medo, tempo ruim. Se treinasse mal um dia, chorava no chuveiro mas descontava no treino seguinte.
Em junho de 2001, com 13 anos, fui pra Americana e nadei na segunda série, a mais fraca, dos 800 livre. Antes de mim, as meninas nadaram mal. Era minha chance: depois de quatro paulistas, eu chegaria no pódio. Mas não cheguei: fiquei nervosa, piorei 20 segundos, tive vergonha de sair da piscina.
Esse deve ter sido o dia mais importante da minha vida. Passou a existir medo e tempo ruim, mas eu decidi que nunca mais ia treinar seis meses e colocar tudo a perder. Mais do que isso, eu entendi o que era ser atleta – ou seja, aprendi a superar decepções, que são infinitamente piores que os desafios.
Naquele segundo semestre, fiz tudo certo. Fiquei em quinto no brasileiro em Uberlândia, onde me hospedei no mesmo hotel da Joanna Maranhão, que hoje mostrou que está de volta a velha forma e bateu o recorde brasileiro em uma prova linda. Na época com 14 anos, ela já era campeã brasileira infantil e a estrela da competição.
Subi no pódio na copa mercosul, treinei com os mais velhos, quebrei a barreira dos 10 minutos, ganhei tudo em Santos. Mas eu queria minha medalha de paulista. Sonhava com ela antes de dormir, durante a aula de geografia, no chuveiro depois do treino e fiz contagem regressiva pra chegar dia 10/11/2001. Um dia soube que a competição seria no Pinheiros e algumas pessoas reclamaram que lá é muito abafado, acho que na hora devo ter concordado.
A verdade é que eu lembro de tudo sobre aquele dia. De acordar no baby barioni e da padaria onde tomamos café, da van que estava meio atrasada, do aquecimento, do meu maiô azul de papel e do Caco me chacoalhando antes da prova quando comecei a chorar e falando “você ama isso”.
Nunca mais esqueci essa frase.
Atrás da baliza, dei uma risada quando, antes de alcançar meu sonho, eu já tinha alcançado a maturidade por incorporar essa verdade que o técnico da minha vida me ensinou. E no fundo, eu nunca mais deixei de dar uma risada sempre que estive prestes a decidir alguma coisa que estivesse envolvida com amor – nenhum deles maior que a natação, mas a verdade é que todas minhas decisões importantes foram tomadas por amor.
Fiquei em segundo naquela prova, chorei no pódio, no abraço com o Caio, quando vi aquele medalha de prata tão bonita no meu pescoço, no abraço com o Caco, na comemoração. E o que mais me lembro foi de uma hora em que sentei na arquibancada, eu lembro que era muito magrinha na época, me encolhi e chorei sozinha, pensando que eu tinha que aproveitar momentos como aqueles porque eles “devem ser raros”.
E a vida me mostrou que eles são muito raros mesmo.
Acho que consigo contar nos dedos de uma mão dias tão felizes como aquele. E ainda espero pela sensação de ser a dona do mundo como eu senti aquele dia, porque isso eu não vivi nunca mais.
Sete anos depois, quando por um trilhão de razões – hoje parecendo completamente injustificáveis – eu era uma mera expectadora naquela mesma piscina, vi meu irmão chorar o choro mais sincero que já vi, antes de receber sua primeira e sofrida medalha de campeonato paulista. Na mesma piscina que eu realizei meu sonho, a pessoa que eu mais admiro e amo nessa vida, realizou o dela.
Hoje, o máximo de superação que pude contar para minha mãe foi ter conseguido acordar cedo para ir até o mesmo Pinheiros, agora a meia hora de ônibus de casa, ver Cielo, o cara que mais me fez chorar no ano passado, naquele 50 livre das Olimpíadas, nadar em busca do recorde que faltava.
Cielo nadou na piscina em que começou a virar gente grande na natação, no clube que o acolheu e a quem ele, merecidamente, é grato e faz questão de mostrar. Achei que eu estava calejada pra esse tipo de emoção – ainda mais vindo de alguém tão vitorioso, as vitórias dos mais sofridos sempre me valem mais – mas não contive o choro quando o vi subir na baliza e comemorar o novo recorde mundial de 50 livre.
Porque eu sei, nós, ex e sempre atletas, sabemos que embora Cielo e todos os nadadores,do recordista ao último no brasileiro de categoria, estejam loucos para tirar férias e passar pela primeira vez no ano uma semana sem treinar, o momento com que eles sonham sozinhos antes de dormir é esse que Cielo viveu hoje. Não o recorde mundial, mas o mesmo momento que eu vivi em 2001, e o mesmo momento que meu irmão viveu ano passado.
Eu acredito na beleza do esporte porque foi ele que me ensinou a sonhar e a lutar de verdade por um sonho. E eu agradeço ao esporte – e a esse lugar mágico, o Pinheiros – por me darem a honra de entender o que o Cielo está sentindo hoje.







